O Tarot

O Tarot foi introduzido na Europa pelos povos vagantes oriundos do crescente fértil na época de decaimento das civilizações clássicas. Estes povos que se terão fixado na Germânia, e mais tarde espalhado por toda a Europa, terão sido os ancestrais dos actuais ciganos. Pensa-se que eles não criaram o Tarot, mas sim que trouxeram este pequeno mistério, mudo em relação à sua verdadeira origem.

No final da Idade Média estas cartas tornam-se populares na aristocracia europeia, e são feitos alguns exemplares por grandes artistas, que lhes deram uma beleza única com imagens finamente desenhadas e detalhes pintados a ouro. Terão sido usados para aconselhar as cortes, como para estudo místico e filosófico dos grandes esoteristas da época. Já era então popular o jogo de cartas vulgar, que não é nada mais nada menos que os arcanos menores desta ferramenta dos sábios. É também nessa altura que aparecem no sul de França os primeiros tratados de Qabala esotérica, e que se começa a ouvir falar com entusiasmo de alquimia, mas esta vaga não tardou em ser ferozmente perseguida pela Igreja, tendo muito deste conhecimento desaparecido novamente para o submundo das sociedades secretas.

É só no final do século XIX que Gregor S. L. Mathers, fundador da ordem esotérica Golden Dawn, recebe instruções específicas acerca da chave deste conhecimento ancestral. E essa chave era precisamente o Tarot. Como explicar isto?

Untitled - 3 A interpretação destes homens de conhecimento foi que o Tarot teria sido criado por sacerdotes iniciados nos templos egípcios, que teriam previsto astrologicamente uma longa época de obscurantismo religioso. Eles sabiam de alguma forma que todo o conhecimento das suas civilizações iria ser submerso pelo tempo, que as suas línguas seriam esquecidas, e que as suas técnicas seriam tidas como malditas. Eles tinham a responsabilidade de criar um mecanismo que fizesse perdurar a luz através da treva, para que ela renascesse na altura certa. O mecanismo que encontraram foi o Tarot. Nos seus arcanos encontram-se encriptados segredos da matemática, da psicologia, da astrologia, da composição manifesta como oculta dos seres. segredos apenas visíveis aos iniciados que detivessem um espírito são, assim como as chaves necessárias.

Essas chaves foram mantidas pelos sábios do oriente, e foram recuperadas no seio da Idade Média pelos europeus no seu contacto com o judaísmo e com islão, numa época de sincretismo que ocorreu durante o período da ocupação árabe. Assim, juntando num caldeirão a alquimia preservada pelos sufis, e a qabala mística preservada pelos judeus, obteve-se o espelho correcto que terá sido levado até ao século XX, onde Mathers viu num tratado que lhe foi misteriosamente confiado, os 22 Arcanos Maiores sobrepostos nos 22 caminhos da árvore da vida qabalistica, brilhando com as cores dos processos alquímicos. Os 4 naipes ilustrando os elementos do hermetismo, com as suas cartas numeradas de 1 a 10, seguindo as 10 Sephirot da árvore da vida. O puzzle iluminava-se à medida que este conjunto de 78 cartas revelava um poço infinito de soluções para as imensas lacunas que o peregrino místico encontra ao tentar construir a sua escada para fora das trevas do obscurantismo religioso (quando não, do senso comum pseudo-científico).

Contudo a euforia destes místicos que colocaram as primeiras sementes para o renascer da pesquisa esotérica do mundo foi precoce. Embora muitas mentes cientificas como Newton, Bhor, Einstein, Freud, Jung, Reich e muitos outros estivessem na posse destas chaves, a força do dogma religioso moldou o espírito cientifico que emergia das trevas a confinar-se ao positivismo, à exploração do mundo pela sua aparência, retirando ao “mundo” ou à realidade, a sua interconexão e dependência da natureza intrínseca e imaterial da consciência dos seres que emanam essa mesma realidade.

Assim este conhecimento continuou na esteira de uns poucos iniciados, que embora já não perseguidos pela inquisição, foram ignorados e distorcidos à imagem de magos negros pela sociedade comum.

Nos nossos dias um novo perigo acresce, o da desinformação provocada pela manipulação da informação sem escrúpulos de uma máquina comercial que injecta no mercado todo o tipo de falsidade sob a legitimação financeira das grandes marcas e editoras cujo único propósito é ganhar dinheiro alimentando o protótipo do “consumidor ignorante”. Sob designações como Nova Era, ou Espiritualidades, são publicados todos os dias livros acerca de assuntos como astrologia, tarot, qabala esotérica, etc. onde não se lê uma palavra que não seja de superficialidade e crendice supersticiosa.

Cabe a cada um de nós procurar junto às fontes, e elas estão hoje escondidas, talvez não mais em caves escuras onde se encontram saturninos homens anónimos, mas confundidas entre um amontoado absurdo de pechisbeque.

Que o peregrino procure no Tarot a sua Rota, ou Caminho Real do Adepto, de volta à Origem que é o seu estado natural, a sua natureza original rectificada.

 

José Silva * 2009

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